sexta-feira, 28 de setembro de 2012

«Não fazemos a mínima ideia do que significa verdadeiramente a palavra «bio» - para além da capacidade de ganhar dinheiro com os órgãos, os seus transplantes ou cópias. Mas isto é apenas necroética. A vida em si permanece – para todo o sempre, espero – um mistério. é um gás, é um líquido? Que acontece após a fecundação, quando o óvulo é envolvido? Por que razão, logo a seguir, o embrião começa, de repente, a viver? Este acontecimento desenrola-se durante uma paragem, num espaço intermédio onde o mecânico se transforma em metafísico. Não temos qualquer influência nisso, não podemos descodificá-lo, mesmo com a ajuda do mais potente dos computadores. O que nós exploramos não é a vida, mas unicamente certos elementos e certas condições de vida, sem saber verdadeiramente se são efectivamente necessários.» (Chargaff, Erwin, 2009, 69-70)

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Comunicação

«Não só a inteligência, senão a mesma grandeza e energia das cousas que se dizem, depende muito do modo com que se dizem. A razão deu em outro lugar o mesmo Santo Agostinho, tão douta e bem assentada como sua: o defeito e o excesso no dizer são dons contrários. O defeito diz mesmos do que convém, o excesso diz mais do que convém: e no meio destes dois extremos está o modo, o qual emenda o defeito, para que não diga menos, e modera o excesso, para que não diga mais. Sendo esta pois a inteireza e perfeição do modo, não há duas cousas em que o mesmo modo seja mais dificultoso de se guardar, e em que tenha maior perigo de se perder ou perverter, que no louvar e no pedir. No louvar, por menos; porque de nenhuma cousa são mais avarentos os homens que do louvor: e no pedir, por mais; porque de nenhuma são mais pródigos que do desejo de receber».

Padre António Vieira, Sermão do Rosário - Segundo

segunda-feira, 24 de setembro de 2012


«Mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar para aprender a viver»


«...só Deus sabe o que virá
só Deus sabe o que será
não há outro que conhece 
tudo o que acontece em mim...»





domingo, 23 de setembro de 2012

«Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e, portanto, vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso».

Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Ausência que de pura angústia se veste, mas de natural nada tem! É refúgio silencioso e sombrio que encapota toda uma razão que a própria razão arremessa! Fado que queima a epiderme outrora cal...Veste-se de negro a presença que outrora verde dava sopro… Agora é só ausência que planta a planta que morre à nascença por ausência de oxigênio… Ausência…

AJO

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

«Hei-de te amar, ou então hei-de chorar por ti Mesmo assim, quero ver te sorrir... E se perder vou tentar esquecer-me de vez, conto até três Se quiser ser feliz....»

Ela procura inspiração para fazer o que não mais inspira. Busca, no meio do turbilhão do desassossego em que mergulhou, a esperança para concluir o que mereceu ser iniciado mas hoje sobrevive desmaiado entre um pensamento e outro… Entre uma questão e outra… Espera que o cronómetro passa com a tristeza de saber que quanto mais passa mais negra se torna a estrada…

AJO

«Deus sabe melhor do que eu

Quem sou eu

Por isso a sorte que me deu

É aquela em que melhor estou.

Deus sabe quem eu sou e alinha

Minhas acções

Duma forma que não é a minha

Mas ele tem as suas razão.»

Fernando Pessoa

sábado, 8 de setembro de 2012

«… a terceira ciência da natureza, a ciência reparadora, toma o primeiro lugar: quer eliminar alguns erros cometidos pela natureza. Isto inspira-me um medo enorme. A ideia que uns grãos de soja ou umas espécies de cereais produzidas num laboratório, resistentes a alguns parasitas, venham a transformar toda a genética, é assustadora. Sabemos menos do que aquilo que somos capazes de perceber e arriscamo-nos a causar danos irreparáveis. A intervenção no código genético dos produtos alimentares ou sobre criaturas vivas é irreversível; se depois espalhamos pelo mundo este tipo de produtos, cometemos o maior crime que eu possa imaginar.»

(Chargaff, Erwin, 2009, 68)
É incrível como Portugal vai a banhos e regressa não fresco, mas quente… Tão quente que entra na etapa do delírio… Mete dó… É triste quando mete dó… É nestes casos que se repara que é bem melhor quando se mete água…

São várias as palavras que podem descrever a valor de umas férias… E se há poema que define o valor das minhas é o poema «Liberdade», de Fernando Pessoa… Pena que depois do «prazer» fica a «consciência pesada» … Toca a ler….

Ai que prazer

não cumprir um dever.

Ter um livro para ler

e não o fazer!

Ler é maçada,

estudar é nada.

O sol doira sem literatura.

O rio corre bem ou mal,

sem edição original.

E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal

como tem tempo, não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.

Estudar é uma coisa em que está indistinta

A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.

Esperar por D. Sebastião,

Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...

Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol que peca

Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto

É Jesus Cristo,

Que não sabia nada de finanças,

Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa

E pronto… Estou de regresso onde no fundo nunca se partiu...

Desfaz a mala feita pra a partida!

Chegaste a ousar a mala?

Que importa? Desesperas ante a ida

Pois tudo a ti te iguala.

Sempre serás o sonho de ti mesmo.

Vives tentando ser,

Papel rasgado de um intento, a esmo

Atirado ao descrer.

Como as correias cingem

Tudo o que vais levar!

Mas é só a mala e não a ida

Que há-de sempre ficar!

Fernando Pessoa

Depois da pausa vem o ritmo… Aos poucos regressa-se de onde nunca se partiu…