terça-feira, 13 de novembro de 2012

Não temos políticos a governar! Temos um grupo sobretudo masculino com algum apontamento feminino que, sob a orientação de uma particular agenda política e agenda política particular, coloca em prática certas medidas que visam num curto espaço de dias assegurar o resto dos seus dias. Assim se faz o que se apelida por aí de política… Pobre Aristóteles… Pobre Aristóteles… Ele bem tentou mas ninguém o entendeu... AJO

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

E ao anúncio da minha morte não chores. Não choreis. Sabei antes que a partir desse momento estarei viva, verdadeiramente mais viva do que quando viva pensavas que estava. Morte aos vossos olhos é vida que ganha a vida que outrora parecia que era vida. Ausência é presença e não a ilusão de uma presença da presença que era ausência. E ao anúncio da minha morte não chores. Não choreis. Nesse dia a viver comecei! AJO

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Há muito que se fala e se alerta para a necessidade do ser humano pensar para lá do quadrado. Figura geométrica por figura geométrica, acredito ser mais pertinente alertar o ser humano para a urgência de pensar para lá da circunferência. É que talvez assim comece a pensar para lá do umbigo quer do ponto de vista particular, quer coletivo…

AJO

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Parece que tudo e todos descobriram o adjetivo «enorme». De repente… Tudo se tornou «enorme» … o medo, a angustia, a aflição, a revolta, a raiva, a sentido se injustiça…, Gaspar, que até não exibe estatura «enorme», tornou-se «enorme» ao proferir a frase: «Um enorme aumento de impostos» … Mas no meio deste «enorme» todo… Há algo que ficou pequeno… Muito pequeno… O Coração de tão apertado, esmagado que foi com tão «enorme» aceleração … Até «enorme» vai ser a lista dos cardiologistas… Isto se a carteira não ficar demasiado pequena... Caso contrário, «enorme» mesmo… só a lista da agência funerária e do coveiro… AJO

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

«Não fazemos a mínima ideia do que significa verdadeiramente a palavra «bio» - para além da capacidade de ganhar dinheiro com os órgãos, os seus transplantes ou cópias. Mas isto é apenas necroética. A vida em si permanece – para todo o sempre, espero – um mistério. é um gás, é um líquido? Que acontece após a fecundação, quando o óvulo é envolvido? Por que razão, logo a seguir, o embrião começa, de repente, a viver? Este acontecimento desenrola-se durante uma paragem, num espaço intermédio onde o mecânico se transforma em metafísico. Não temos qualquer influência nisso, não podemos descodificá-lo, mesmo com a ajuda do mais potente dos computadores. O que nós exploramos não é a vida, mas unicamente certos elementos e certas condições de vida, sem saber verdadeiramente se são efectivamente necessários.» (Chargaff, Erwin, 2009, 69-70)

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Comunicação

«Não só a inteligência, senão a mesma grandeza e energia das cousas que se dizem, depende muito do modo com que se dizem. A razão deu em outro lugar o mesmo Santo Agostinho, tão douta e bem assentada como sua: o defeito e o excesso no dizer são dons contrários. O defeito diz mesmos do que convém, o excesso diz mais do que convém: e no meio destes dois extremos está o modo, o qual emenda o defeito, para que não diga menos, e modera o excesso, para que não diga mais. Sendo esta pois a inteireza e perfeição do modo, não há duas cousas em que o mesmo modo seja mais dificultoso de se guardar, e em que tenha maior perigo de se perder ou perverter, que no louvar e no pedir. No louvar, por menos; porque de nenhuma cousa são mais avarentos os homens que do louvor: e no pedir, por mais; porque de nenhuma são mais pródigos que do desejo de receber».

Padre António Vieira, Sermão do Rosário - Segundo

segunda-feira, 24 de setembro de 2012


«Mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar para aprender a viver»


«...só Deus sabe o que virá
só Deus sabe o que será
não há outro que conhece 
tudo o que acontece em mim...»





domingo, 23 de setembro de 2012

«Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e, portanto, vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso».

Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Ausência que de pura angústia se veste, mas de natural nada tem! É refúgio silencioso e sombrio que encapota toda uma razão que a própria razão arremessa! Fado que queima a epiderme outrora cal...Veste-se de negro a presença que outrora verde dava sopro… Agora é só ausência que planta a planta que morre à nascença por ausência de oxigênio… Ausência…

AJO

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

«Hei-de te amar, ou então hei-de chorar por ti Mesmo assim, quero ver te sorrir... E se perder vou tentar esquecer-me de vez, conto até três Se quiser ser feliz....»

Ela procura inspiração para fazer o que não mais inspira. Busca, no meio do turbilhão do desassossego em que mergulhou, a esperança para concluir o que mereceu ser iniciado mas hoje sobrevive desmaiado entre um pensamento e outro… Entre uma questão e outra… Espera que o cronómetro passa com a tristeza de saber que quanto mais passa mais negra se torna a estrada…

AJO

«Deus sabe melhor do que eu

Quem sou eu

Por isso a sorte que me deu

É aquela em que melhor estou.

Deus sabe quem eu sou e alinha

Minhas acções

Duma forma que não é a minha

Mas ele tem as suas razão.»

Fernando Pessoa

sábado, 8 de setembro de 2012

«… a terceira ciência da natureza, a ciência reparadora, toma o primeiro lugar: quer eliminar alguns erros cometidos pela natureza. Isto inspira-me um medo enorme. A ideia que uns grãos de soja ou umas espécies de cereais produzidas num laboratório, resistentes a alguns parasitas, venham a transformar toda a genética, é assustadora. Sabemos menos do que aquilo que somos capazes de perceber e arriscamo-nos a causar danos irreparáveis. A intervenção no código genético dos produtos alimentares ou sobre criaturas vivas é irreversível; se depois espalhamos pelo mundo este tipo de produtos, cometemos o maior crime que eu possa imaginar.»

(Chargaff, Erwin, 2009, 68)
É incrível como Portugal vai a banhos e regressa não fresco, mas quente… Tão quente que entra na etapa do delírio… Mete dó… É triste quando mete dó… É nestes casos que se repara que é bem melhor quando se mete água…

São várias as palavras que podem descrever a valor de umas férias… E se há poema que define o valor das minhas é o poema «Liberdade», de Fernando Pessoa… Pena que depois do «prazer» fica a «consciência pesada» … Toca a ler….

Ai que prazer

não cumprir um dever.

Ter um livro para ler

e não o fazer!

Ler é maçada,

estudar é nada.

O sol doira sem literatura.

O rio corre bem ou mal,

sem edição original.

E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal

como tem tempo, não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.

Estudar é uma coisa em que está indistinta

A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.

Esperar por D. Sebastião,

Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...

Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol que peca

Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto

É Jesus Cristo,

Que não sabia nada de finanças,

Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa

E pronto… Estou de regresso onde no fundo nunca se partiu...

Desfaz a mala feita pra a partida!

Chegaste a ousar a mala?

Que importa? Desesperas ante a ida

Pois tudo a ti te iguala.

Sempre serás o sonho de ti mesmo.

Vives tentando ser,

Papel rasgado de um intento, a esmo

Atirado ao descrer.

Como as correias cingem

Tudo o que vais levar!

Mas é só a mala e não a ida

Que há-de sempre ficar!

Fernando Pessoa

Depois da pausa vem o ritmo… Aos poucos regressa-se de onde nunca se partiu…

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Para este ano quero abraços… Sol… Mar… Areia… Quero (re)leitura com sabor a cultura portuguesa… «Poesia do Eu», de Fernando Pessoa, «O Labirinto da Saudade», de Eduardo Lourenço... Quero leituras com sabor a diferentes culturas … «O Livro dos Saberes», organizado por Constantin von Barloewen, com entrevistas a André Gide, Henry James, Marcel Proust, Whalt Whitman… É isso… É oficial… Chegou o meu momento, amigos e amigas… Estou de férias… Ainda incrédula… Só vendo… Só colocando a mão e o pé acreditarei… Para todos vocês que estão como eu aqui ficam os votos de boas férias e até breve…

«Quando se coloca individualmente a um cientista a questão: «O que é a vida?», falam-nos do que substitui a vida, e das reacções ou fórmulas em que se reflete. Isto equivale mais ou menos questionarmo-nos «O que é um livro?» e obter esta resposta: decompomo-lo, analisamos o papel, observamos ao que se assemelham as letras e com que tinta foram impressas – mas ignoramos o que verdadeiramente se encontra no livro. O mesmo se aplica nas ciências da natureza, também não no-lo dizem. Nenhum cientista, ninguém, sabe o que é a vida» (Chargaff, Erwin, 2009, 67-68).

sábado, 21 de julho de 2012

É meu e só meu…, este fado.

Nosso não! Nosso não!

Fado pertence a quem tem a respiração estampada no papiro.

Fado dactilografado a preto na pedra branca.

Não é rascunho. É original.

Escrito com pena e pela pena que não mais pertence…

É meu e só meu…, este fado.

Nosso não! Nosso não!

Fado pertence a quem arruína alforria.

Agora anexa a um aristocrático.

Encerrada no mosteiro com liame sombrio.

Fado com moldura, de encaixe, negra …

Lacrado em baú…

Pelo tratado de um cultivo… Amanho fóssil… Dogmático!

É meu e só meu…, este fado.

Nosso não! Nosso não!

AJO
«Quando nos consagramos à astronomia, à bioquímica ou a uma disciplina da mesma ordem, ficamos sobretudo impressionados pela beleza. Não somente pela harmonia ou pela diversidade desconcertante do mundo, mas, concretamente, pelo milagre que se manifesta por exemplo já na associação de numerosas células no seio do organismo de um feto. Se, no fim de nove meses de gravidez, alinhássemos todos os fios de ADN desta criança, obteríamos um percurso um milhão de vezes maior do que ir e vir à Lua. O facto de uma mulher trazer ao mundo uma criatura concebida de uma maneira tão engenhosa não pára de me surpreender e entusiasmar. Podemos dizer que se o homem não compreende a beleza, o homem não compreende absolutamente nada. É ela e só ela que nos salva e nunca a poderemos dissociar da verdade». (Serres, Michel, 2009, 386)

sexta-feira, 20 de julho de 2012

«O amor é a única solução. Mas ele só existe raramente e muito mais raramente entre duas pessoas. De uma maneira, geral, é consumido pelo poder, pelo dinheiro, pela concorrência e pela dispersão. Mas os que se dedicam ao amor constituem a aristocracia secreta da humanidade. Não se encontra e apenas se vê naqueles seres. Eles não são nem presidentes da República, nem cientistas, nem financeiros, fazem-se notar pela sua simplicidade e talvez seja esta a chave da santidade. São o sal da terra, dos quais fala o Evangelho. O amor seria a solução para todo o ser humano, mas ninguém quer. Enfim, fala-se muito, mas a cada instante da vida é necessário senti-lo e mostrá-lo do mais profundo do nosso coração, com uma fidelidade inabalável – infelizmente, é a grande excepção e isso constitui provavelmente a nossa maior tragédia» (Serres, Michel, 2009, 392)

quinta-feira, 19 de julho de 2012

«Encontramo-nos de novo, no limiar do inesperado e do imprevisível. Se me interrogar sobre o sentido da vida e, portanto, também sobre o sentido, a direcção que ela dá em particular ou em geral, respondo-lhe que nós nunca o saberemos. Não conhecemos nem o objectivo das evoluções futuras nem o da história em si. Felizmente, as pessoas têm crianças que são por vezes desobedientes, que fazem o que os pais não estão à espera, e que resolvem assim os problemas face aos quais os adultos ficam desamparados. Obviamente, criam a seguir novos problemas. Portanto, o sentido da vida revela-se justamente neste género de mudanças de direcção que parecem ramificações contínuas das árvores» (Serres, Michel, 2009, 386)

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Saudade. Definitivamente é saudade o que inquieta o batimento cardíaco. Saudade o que queima os ventrículos e os átrios. Saudade o que molha a epiderme. Saudade o que come a ação e planta a inércia. Saudade o que manipula o pensamento e arquiteta o sonhar acordado. É saudade o ingrediente que forma as plaquetas… Saudade o aroma do oxigénio. Saudade… Tão-somente saudade o que protela o respirar... Tão-somente?! E sirva o tempo para aniquilar a saudade… Aniquilar? Aniquilar ou dilatar? Aniquilar… Aniquilar… Outra coisa não… Outra coisa não…

AJO

quinta-feira, 28 de junho de 2012

É tempo de fado. É fado do tempo. É tempo de tempo. Fado de fado. O tempo é fado. Fado é tempo… Anexo a quem tem de pertencer. É fado… É fado o alimento das arritmias. Salgado o que amamenta a alma… Cega a luminosidade que translade a ventana… Vínculo no cosmo de quem domicilia. É fado… É fado o que habita no tarso… A planta do pé murcha e já não vigora fulgor na marcha.

AJO

terça-feira, 19 de junho de 2012

O nosso ministro, Álvaro Santos Pereira, diz que «A lei laboral foi discutida à vírgula com os parceiros sociais». Espero que os intervenientes nesta discussão saibam as regras para a colocação da vírgula – é que se há «locais» num discurso em que a vírgula é facultativa, há outros em que é proibido ser colocada e há ainda outros em que é obrigatória a sua colocação… Imaginem se colocaram mal a vírgula... Começo a perceber o real problema… A vírgula…

Para conferir palavras do Senhor Ministro... http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=563281
Impõem-se na vida da vida sem consentimento… Tatuam-se na hipoderme do pensamento. Penetram… Queimam os adipócitos. São espinhosas... Residem intrinsecamente nos sinais vitais... Não fogem. Mas ausentam-se. Por um instante… Por vários instantes… Mas não se apagam… Nunca se apagam… Não morrem… Nunca morrem...

AJO

segunda-feira, 18 de junho de 2012

David Mourão Ferreira chamou funesta à primavera… Mourão Ferreira esqueceu-se o quanto o inverno contém o poder de ser e ter coração quente… Tão quente que chega a sufocar o sentir de quem ousa provar o sabor do sentir… É caso para se dizer: «ai [funesto inverno] … Ninguém fale em [inverno] quem me dera [quem me dera] ter morrido nesse dia… ai [funesto inverno] …».

Espero que entendas Mourão Ferreira e saibas desculpar tão ousada ação verbal… AJO

sexta-feira, 15 de junho de 2012

É tempo de dar tempo ao tempo. Mas nem tempo há para dar tempo ao tempo. O tempo quer tempo. O tempo devora o tempo. Com o tempo… O tempo castiga o tempo... AJO

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Levanta o olhar para o sol. O sol seca o que a lua humedece.

Vira o peito à luz. A luz clareia o que o escuro enegrece.

Estende a mão ao mar. O mar dá a bravura que agita.

Abre os braços ao rio. O rio dá a serenidade que equilibra.

Agora… Agora dá um passo em frente e caminha…

AJO

domingo, 10 de junho de 2012

Quantidade é o signo da ordem do dia. O significante é o mesmo. A pragmática dá o mote… A semiose varia… Até quando…?!

quarta-feira, 6 de junho de 2012

«O problema do mundo de hoje é que as pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas e as pessoas idiotas estão cheias de certezas» - Charles Bukowski

terça-feira, 5 de junho de 2012

Mais triste que acabar… é não poder começar!

Mais triste que não dar… é sentir que dá e não pode dar!

Mais triste que não viver… é saber que há viver e não se pode viver!

Mais triste que não sentir… é saber que há sentir e…

Resta o alívio de poder sentir …

Alívio?

AJO

sábado, 2 de junho de 2012

‎60 quilómetros a pedalar quase sem parar, num piso irregular, com pedra quanto basta, debaixo de quase 40 graus, chuva e vento fortes e muita lama... Valeu a aventura :-)))

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Acaba o que não pode começar.

Dá o que não pode dar.

Há viver e não se pode viver.

Sente-se e pode-se sentir…

Resta o alívio de poder sentir …

Alívio?

AJO

segunda-feira, 28 de maio de 2012

No diálogo com o silêncio…

… acontece o grande sentir.

… a dor sente-se.

… o amor vive-se.

… a vida ocorre na plenitude de um viver amadurecido e sentido.

No diálogo com o silêncio…

AJO

sábado, 26 de maio de 2012

O cérebro desconhece o coração. E o coração desconhece o cérebro. Ambos sabem que existem e que vivem no mesmo espaço físico, mas estranham-se. Desconhecem os problemas que lhes são diagnosticados. Este desconhecimento é muito aborrecido. Porque se ambos resolvessem conversar, muitos problemas estavam resolvidos. A medicina dava um passo em frente. AJO

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Ausência é presença. Dolorosa. Não. Muito dolorosa. Mas como sentir falta sem ardência?

... ...

Ria... Lenitivo dos amores. Conforto dos apaixonados. Consolação dos amantes. Refrigério dos desesperados. Alívio dos tristes. Emoliente de quem sofre. Ócio dos que querem, mas não podem… É lenitivo… Ria...

AJO

domingo, 20 de maio de 2012

Sinceramente, não me lembro do último dia em que vi televisão sentada no meu sofá – acredito que tenha sido no fim do ano de 2011 ou início de 2012. Hoje lembrei-me de me sentar no sofá e de a ligar. E ainda bem. Assisti a uma Grande e Singular entrevista do Professor Alexandre Quintanilha a António José Teixeira, na SIC Notícias. As palavras do Professor abriram-me os lábios.... Humedeceram-me os olhos... Encheram-me a alma... Ofereceram-me pão e água… Estou pronta para «… passar além do Bojador…».

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Pensa-se que nunca se perde o que nunca se encontrou. Como não se descobriu… Não se soube... Não se viu... Não se sentiu… E também não se viveu… O predicado está errado. Perde-se… porque nunca se ousou.

AJO

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Abraçar a utopia. O passo para o paraíso? Um paraíso onde o negro desenha a escuridão, como sinal de quem um dia ousou abraçar a fantasmagoria. O éden não é mais hoje o que foi ontem - como o tempo, também muda de cor. Pigmentação de um semblante carregado. Próprio de quem um dia viu-se confrontado com quem quis enlaçar a quimera.

AJO

segunda-feira, 14 de maio de 2012

‎"Sou composta por urgências: minhas alegrias são intensas; minhas tristezas, absolutas. Entupo-me de ausências, Esvazio-me de excessos. Eu não caibo no estreito, eu só vivo nos extremos. Pouco não me serve, médio não me satisfaz, metades nunca foram meu forte! Todos os grandes e pequenos momentos, feitos com amor e com carinho, são pra mim recordações eternas. Palavras até me conquistam temporariamente... Mas atitudes me perdem ou me ganham para sempre. Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato... Ou toca, ou não toca.” Clarice Lispector

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Lance é alcance. Mesmo áspero, é movimento que entre a mente leva ao acontecimento. Sem consentimento? No lunar, o sentimento não precisa de consentimento.

AJO

quarta-feira, 9 de maio de 2012

A amizade é como as flores. Planta-se. Rega-se. Protege-se. Cuida-se. Alimenta-se. Pétala a pétala…, folha à folha vai desabrochando. Quando florida colhe-se e coloca-se na lapela. A partir desse dia não se é mais a mesma. É-se a soma do eu com eles/as. O resultado é nós. Nunca mais se repousa. O trabalho aumenta. É cíclico… Planta-se. Rega-se. Protege-se. Cuida-se. Alimenta-se. E que bem que sabe…

AJO

terça-feira, 8 de maio de 2012

Bate forte. Muito forte. Como que chamando a morte. Bate forte e arrebate. Como se fosse arte. Bate forte a escuridão. Que nem lugar dá ao clarão. Quer ser vida… Mais não é do que a ida.

O bater não é mais forte. Forte mesmo... Só a morte.

AJO

domingo, 6 de maio de 2012

Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem, são os que são absurdos - a ânsia de coisas impossíveis, precisamente porque são impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação da existência do mundo. Todos estes meios tons da inconsciência da alma criam em nós uma paisagem dolorida, um eterno sol-pôr do que somos...O sentirmo-nos é então um campo deserto a escurecer, triste de juncos ao pé de um rio sem barcos, negrejando claramente entre margens afastadas. In Livro do Desassossego, Fernando Pessoa

terça-feira, 1 de maio de 2012

«Tudo quanto fazemos, na arte ou na vida, é a cópia imperfeita do que pensámos em fazer. Desdiz não só da perfeição externa, senão da perfeição interna; falha não só à regra do que deveria ser, senão à regra do que julgávamos que poderia ser. Somos ocos não só por dentro, senão também por fora, párias da antecipação e da promessa.»

Fernando Pessoa.Livro do Desassossego

domingo, 29 de abril de 2012

Eu creio que um dos princípios essenciais da sabedoria é o de se abster das ameaças verbais ou insultos.

Maquiavel

domingo, 22 de abril de 2012

Espelhas o céu. Espelhas a vida... Espelhas quem precisa de ti... Espelhas quem de ti se alimenta...

terça-feira, 17 de abril de 2012

Diz-se que não chove. Deseja-se ardentemente chuva. E nunca choveu tanto quanto agora. Só que não chove na terra. Chove na pele.

AJO

domingo, 15 de abril de 2012

Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso. (Fernando Pessoa)

sábado, 14 de abril de 2012

«Ser feliz é ter futuro e é dar futuro. Todos pensamos ser felizes e acordamos todos os dias com esse desejo. Mas ser feliz não é uma sorte, nem é ausência de problemas. É viver com sentido, com coragem, construindo o futuro e dando futuro. Isso depende de mim. Era uma vez um homem que corria e corria pela vida… A vida era curta e necessitava de correr muito para gozar muito e ser feliz. E quanto mais corria, mais necessitava de correr! Descobria sempre mais lugares para visitar! Necessitava encontrar tudo e gozar de tudo. Até que um dia, cansado de tanto correr, parou. Então, a felicidade pôde alcançá-lo».

(Padre) Vasco Pinto de Magalhães in ‘Não Há Soluções, Há Caminhos’

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Não Choreis os Mortos

Não choreis nunca os mortos esquecidos

Na funda escuridão das sepulturas.

Deixai crescer, à solta, as ervas duras

Sobre os seus corpos vãos adormecidos.

E quando, à tarde, o Sol, entre brasidos,

Agonizar... guardai, longe, as doçuras

Das vossas orações, calmas e puras,

Para os que vivem, nudos e vencidos.

Lembrai-vos dos aflitos, dos cativos,

Da multidão sem fim dos que são vivos,

Dos tristes que não podem esquecer.

E, ao meditar, então, na paz da Morte,

Vereis, talvez, como é suave a sorte

Daqueles que deixaram de sofrer.

Pedro Homem de Mello, in "Caravela ao Mar"

domingo, 8 de abril de 2012

Chora para que sorriam. Sofre para que se alegrem. Renuncia para que tenham. Recua para que avancem. Apaga-te para que brilhem. Morre para que vivam. Assim se dimanam pedaços de uma biografia… AJO

quarta-feira, 4 de abril de 2012

O silêncio sempre foi e é um dos meios mais fortes da comunicação. Mas também o mais exigente. O mais complexo. O mais doloso. O mais íntimo. A pragmática do silêncio é dura - Fazer silêncio. Obedecer ao silêncio. Respeitar o silêncio. Praticar o silêncio. Jogar o silêncio. Jogar com silêncio. Jogar com o silêncio. Gerir silêncio. Gerir o silêncio. Falar com silêncio. Falar silêncio. Viver no silêncio. Viver de silêncio. Viver do silêncio. Morrer no silêncio. Morrer de silêncio. Morrer do silêncio. O silêncio de silêncio não tem nada. O silêncio escuta-se no silêncio. O silêncio é tudo menos silêncio. AJO

domingo, 1 de abril de 2012

Espera… Espera…

Quem espera desespera, dizem. Não desesperes.

Acredita… Acredita...

Quem acredita alcança, dizem. Não alcançaste?

Talvez seja por isso que quem espera desespera!

Acreditar não significa alcançar….?!

AJO

segunda-feira, 26 de março de 2012

"Há três espécies de mulheres neste mundo: a mulher que se admira, a mulher que se deseja e a mulher que se ama. A beleza, o espírito, a graça, os dotes da alma e do corpo geram a admiração. Certas formas, certo ar voluptuoso, criam o desejo. O que produz o amor, não se sabe; é tudo isto às vezes; é mais do que isto, não é nada disto. Não sei o que é; mas sei que se pode admirar uma mulher sem a desejar, que se pode desejar sem a amar. O amor não está definido, nem o pode ser nunca. O amor verdadeiro..."

Almeida Garrett

quinta-feira, 22 de março de 2012

Não importa aonde você parou...

Em que momento da vida você cansou...

O que importa é que sempre é possível e necessário "Recomeçar".

Recomeçar é dar uma chance a si mesmo...

É renovar as esperanças na vida e o mais importante...

Acreditar em você de novo.

Sofreu muito nesse período?

Foi aprendizado...

Chorou muito?

Foi limpeza da alma...

Ficou com raiva das pessoas?

Foi para perdoá-las um dia...

Sentiu-se só por diversas vezes?

É porque você fechou as portas até para os anjos...

Acreditou que tudo estava perdido?

Era o início da sua melhora...

Pois é...

Agora é hora de reiniciar...

De pensar na luz...

De encontrar prazer nas coisas mais simples de novo...

Que tal um novo emprego?

Um corte de cabelo arrojado...

Diferente?

Um novo curso...

Ou aquele velho desejo de aprender a pintar...

Desenhar...

Dominar o computador...

Ou qualquer outra coisa...

Olha quanto desafio...

Quanta coisa nova nesse mundão de meu Deus, o esperando.

Está se sentindo sozinho?

Besteira...

Tem tanta gente que você afastou com o seu "período de isolamento"...

Tem tanta gente esperando apenas um sorriso seu para "chegar" perto de você.

Quando nos trancamos na tristeza...

Nem nós mesmos nos suportamos...

Ficamos horríveis...

O mal humor vai comendo nosso fígado...

Até a boca fica amarga!

Recomeçar...

Hoje é um bom dia para começar novos desafios.

Onde você quer chegar?

Ir alto...

Sonhe alto...

Queira o melhor do melhor...

Queira coisas boas para a vida...

Pensando assim trazemos para nós aquilo que desejamos...

Se pensamos pequeno...

Coisas pequenas teremos...

Já se desejarmos fortemente o melhor e, principalmente, lutarmos pelo melhor, o melhor vai se instalar na nossa vida.

E é o hoje o dia da faxina mental...

Joga fora tudo que te prende ao passado...

Ao mundinho de coisas tristes...

Fotos...

Peças de roupa, papel de bala...

Ingressos de cinema, bilhete de viagens...

E toda aquela tranqueira que guardamos quando nos julgamos apaixonados...

Jogue tudo fora...

Mas, principalmente, esvazie seu coração...

Fique pronto para a vida...

Para um novo amor...

Lembre-se: somos apaixonáveis...

Somos sempre capazes de amar muitas e muitas vezes...

Afinal de contas...

Nós somos o "Amor".

"Sou do tamanho daquilo que vejo e não do tamanho da minha altura".

Carlos Drummond de Andrade

ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA

Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio E um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé Para ver quem é, Enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas E correr pelos interstícios das pedras, pressuroso e vivo como vermelhas minhocas Despertas; Enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas, Órfãos de pais e mães, Andarem acossados pelas ruas Como matilhas de cães; Enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto Com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente, Num silêncio de espanto Rasgado pelo grito da sereia estridente; Enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio Cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas Amassando na mesma lama de extermínio Os ossos dos homens e as traves das suas casas; Enquanto tudo isso acontecer, e o mais que se não diz por ser verdade, Enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia, O poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade.

António Gedeão, Linhas de Força

terça-feira, 13 de março de 2012

Quem inventou este muro

Que desenhou o aterro

Ainda mais duro

Que o betão e ferro

Quem inventou este muro

Que abre o enterro

Que outorga o murro

E leva ao berro

Quem inventou este muro

Quem…?

AJO

É preciso saber...

Samaritana...

Para ser grande, sê inteiro: nada

Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda

Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa

segunda-feira, 12 de março de 2012

Medo



Quem dorme à noite comigo?
É meu segredo, é meu segredo!
Mas se insistirem lhes digo.
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo!
E cedo, porque me embala
Num vaivém de solidão,
É com silêncio que fala,
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão.
Que farei quando, deitado,
Fitando o espaço vazio,
Grita no espaço fitado
Que está dormindo a meu lado,
Lázaro e frio?
Gritar? Quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim?
Gostava até de matar-me.
Mas eu sei que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim.
Reinaldo Ferreira

domingo, 11 de março de 2012

O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis. Fernando Pessoa

Primavera

Primavera
Todo o amor que nos
prendera
como se fora de cera
se quebrava e desfazia
ai funesta primavera
quem me dera, quem nos dera
ter morrido nesse dia

E condenaram-me a tanto
viver comigo meu pranto
viver, viver e sem ti
vivendo sem no entanto
eu me esquecer desse encanto
que nesse dia perdi

Pão duro da solidão
é somente o que nos dão
o que nos dão a comer
que importa que o coração
diga que sim ou que não
se continua a viver

Todo o amor que nos
prendera
se quebrara e desfizera
em pavor se convertia
ninguém fale em primavera
quem me dera, quem nos dera
ter morrido nesse dia

              David Mourão-Ferreira

Duas Lágrimas de Orvalho




Duas lágrimas de orvalho
Caíram nas minhas mãos
Quando eu te afaguei o rosto
Pobre de mim, pouco valho
Pra te acudir na desgraça,
Pra te valer no desgosto
Por que choras, não me dizes
Não é presciso dizê-lo
Não dizes, eu advinho
Os amantes infelizes
Deveriam ter coragem
Para mudar de caminho
Por amor damos alma, 
Damos corpo, damos tudo
Até cansarmos na jornada
Mas quando a vida se acaba
O que era amor, é saudade
E a vida já não é nada
Se estás a tempo, recua
Amordaça o coração
Mata o passado e sorri
Mas se não estás, continua
Disse isto minha mãe
Ao ver-me chorar por ti

sexta-feira, 9 de março de 2012

A Idade de Ser Feliz

Existe somente uma idade para a gente ser feliz,somente uma época na vida de cada pessoa em que é possível sonhar e fazer planos e ter energia bastante para realiza-los a despeito de todas as dificuldades e obstáculos. Uma só idade para a gente se encontrar com a vida e viver apaixonadamente e desfrutar tudo com toda intensidade sem medo nem culpa de sentir prazer. Fases douradas em que a gente pode criar e recriar a vida à nossa própria imagem e semelhança e vestir-se com todas as cores e experimentar todos os sabores e entregar-se a todos os amores sem preconceito nem pudor. Tempo de entusiasmo e coragem em que todo desafio é mais um convite à luta que a gente enfrenta com toda disposição de tentar algo NOVO, de NOVO e de NOVO, e quantas vezes for preciso. Essa idade tão fugaz na vida da gente chama-se PRESENTE e tem a duração do instante que passa.

Mário Quintana

quinta-feira, 8 de março de 2012

O Homem e a Mulher

O homem é a mais elevada das criaturas; a mulher, o mais sublime dos ideais.

Deus fez para o homem um trono; para a mulher fez um altar.

O trono exalta e o altar santifica.

O homem é cérebro; a mulher, coração.

O cérebro produz a luz; o coração produz amor.

A luz fecunda; o amor ressuscita.

O homem é o gênio, a mulher o anjo.

O gênio é imensurável; o anjo é indefinível.

A aspiração do homem é a suprema gloria; a aspiração da mulher é a virtude extrema.

A gloria promove a grandeza e a virtude, a divindade.

O homem tem a supremacia; a mulher, a preferência.

A supremacia significa forca; a preferência representa o direito.

O homem é forte pela razão; a mulher invencível pelas lagrimas.

A razão convence e as lagrimas comovem.

O homem é capaz de todos os heroísmos; a mulher, de todos os martírios.

O heroísmo enobrece e o martírio purifica.

O homem pensa e a mulher sonha.

Pensar é ter uma palavra no cérebro; sonhar é ter na fronte uma aureola.

O homem é a águia que voa; a mulher, o rouxinol que canta.

Voar é dominar o espaço e cantar é conquistar a alma.

Enfim o homem esta colocado onde termina a terra; a mulher, onde começa o céu.

Victor Hugo

quarta-feira, 7 de março de 2012

Se há dias em que as lágrimas falam mais alto, também existem dias em que os sorrisos falam mais alto. E o que temos que fazer? Comemorar os sorrisos. E quando as lágrimas chegarem vão ser vencidas, muito mais facilmente.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Deve chamar-se tristeza

Deve chamar-se tristeza

Isto que não sei que seja

Que me inquieta sem surpresa

Saudade que não deseja.

Sim, tristeza - mas aquela

Que nasce de conhecer

Que ao longe está uma estrela

E ao perto está não a Ter.

Seja o que for, é o que tenho.

Tudo mais é tudo só.

E eu deixo ir o pó que apanho

De entre as mãos ricas de pó.

Fernando Pessoa

O medo: o maior gigante da alma

Para quem tem medo, e a nada se atreve, tudo é ousado e perigoso. É o medo que esteriliza nossos abraços e cancela nossos afetos; que proíbe nossos beijos e nos coloca sempre do lado de cá do muro. Esse medo que se enraíza no coração do homem impede-o de ver o mundo que se descortina para além do muro, como se o novo fosse sempre uma cilada, e o desconhecido tivesse sempre uma armadilha a ameaçar nossa ilusão de segurança e certeza.

O medo, já dizia Mira Y Lopes, é o grande gigante da alma, é a mais forte e mais atávica das nossas emoções. Somos educados para o medo, para o não-ousar e, no entanto, os grandes saltos que demos, no tempo e no espaço, na ciência e na arte, na vida e no amor, foram transgressões, e somente a coragem lúdica pode trazer o novo, e a paisagem vasta que se descortina além dos muros que erguemos dentro e fora de nós mesmos.

E se Cristo não tivesse ousado saber-se o Messias Prometido? E se Galileu Galilei tivesse se acovardado, diante das evidências que hoje aceitamos naturalmente? E se Freud tivesse se acovardado diante das profundezas do inconsciente? E se Picasso não tivesse se atrevido a distorcer as formas e a olhar como quem tivesse mil olhos? "A mente apavora o que não é mesmo velho", canta o poeta, expressando o choque do novo, o estranhamento do desconhecido.

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.

Fernando Teixeira Andrade

domingo, 4 de março de 2012

Dias de paixão. De lágrima de sangue. Sangue que é tecido muscular. Matéria torna-se verbo. Verbo alimenta os ávidos. Do outro lado do espetro dos sinais vitais o verbo se faz Homem. Logos é a aurora. Aurora transportará um Kósmo…?!

AJO

sábado, 3 de março de 2012

O bater da porta foi forte

O olhar profundo

Tão profundo…

O gesto forte

Tão forte…

O toque decidido

Tão decidido...

A entrega inevitável

Tão inevitável…

AJO

«A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, canta, chora, dança, ri e vive intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos.» Charles Chaplin

sexta-feira, 2 de março de 2012

...

«Ah, esses moralistas... Não há nada que empeste mais do que um desinfetante!» Mário Quintana

...

«A arte de viver é simplesmente a arte de conviver ... simplesmente, disse eu? Mas como é difícil!» Mário Quintana

quinta-feira, 1 de março de 2012

Para ouvir ou para escutar?

Eu

Eu sou a que no mundo anda perdida,

Eu sou a que na vida não tem norte,

Sou a irmã do Sonho, e desta sorte

Sou a crucificada… a dolorida…

Sombra de névoa ténue e esvaecida,

E que o destino amargo, triste e forte,

Impele brutalmente para a morte!

Alma de luto sempre incompreendida!…

Sou aquela que passa e ninguém vê…

Sou a que chamam triste sem o ser…

Sou a que chora sem saber porquê…

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,

Alguém que veio ao mundo pra me ver

E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca - Livro de Mágoas

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Sonho. Não sei quem sou.

Sonho. Não sei quem sou neste momento.

Durmo sentindo-me. Na hora calma

Meu pensamento esquece o pensamento,

Minha alma não tem alma.

Se existo é um erro eu o saber. Se acordo,

Parece que erro. Sinto que não sei.

Nada quero nem tenho nem recordo.

Não tenho ser nem lei.

Lapso da consciência entre ilusões,

Fantasmas me limitam e me contêm.

Dorme insciente de alheios corações, Coração de ninguém.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Depus a Máscara

Depus a máscara e vi-me ao espelho.

Era a criança de há quantos anos.

Não tinha mudado nada...

É essa a vantagem de saber tirar a máscara.

É-se sempre a criança,

O passado que foi

A criança.

Depus a máscara, e tornei a pô-la.

Assim é melhor,

Assim sem a máscara.

E volto à personalidade como a um términus de linha.

Álvaro de Campos, in "Poemas"

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Mais uma beleza...

Há Uma Música do Povo - Fernando Pessoa

Há uma música do povo,
Nem sei dizer se é um fado
Que ouvindo-a há um ritmo novo
No ser que tenho guardado...
Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser...
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver...

E ouço-a embalado e sozinho...
É isso mesmo que eu quis ...
Perdi a fé e o caminho...
Quem não fui é que é feliz.

Mas é tão consoladora
A vaga e triste canção ...
Que a minha alma já não chora
Nem eu tenho coração ...

Sou uma emoção estrangeira,
Um erro de sonho ido...
Canto de qualquer maneira
E acabo com um sentido!

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Desejos Vãos

Eu queria ser o Mar de altivo porte

Que ri e canta, a vastidão imensa!

Eu queria ser a Pedra que não pensa,

A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz imensa,

O bem do que é humilde e não tem sorte!

Eu queria ser a árvore tosca e densa

Que ri do mundo vão e até a morte!

Mas o Mar também chora de tristeza ...

As árvores também, como quem reza,

Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,

Tem lágrimas de sangue na agonia!

E as Pedras ... essas ... pisa-as toda a gente! ...

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Para ouvir, ver e voltar a ouvir e voltar...

Estou rendida... Completamente rendida... Reparem nos músicos, do melhor..., do melhor... Rendam-se que vale a rendição...



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Vontade!

Não se pode fazer vontade à vontade. A vontade não tem quereres. A vontade só tem deveres. Quando o querer é não dever, então é não poder. Por isso, a vontade, mesmo que tenha vontade, não pode. Logo, não devia haver vontade.

SEGUE O TEU DESTINO

Segue o teu destino,

Rega as tuas plantas,

Ama as tuas rosas.

O resto é a sombra

De árvores alheias.

A realidade

Sempre é mais ou menos

Do que nós queremos.

Só nós somos sempre

Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.

Grande e nobre é sempre

Viver simplesmente.

Deixa a dora nas aras

Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.

Nunca a interrogues.

Ela nada pode

Dizer-te. A resposta

Está além dos deuses.

Mas serenamente

Imita o Olimpo

No teu coração.

Os deuses são deuses

Porque não se pensam.

Odes de Ricardo Reis

Esta Velha Angústia

Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.
Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que...,
Isto.
Um internado num manicômio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicômio sem manicômio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim...
Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino? Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.
Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feiíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer —
Júpiter, Jeová, a Humanidade —
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?
Estala, coração de vidro pintado!
Álvaro de Campos, in "Poemas"

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Culpados

Somos donos de nossos atos,

mas não donos de nossos sentimentos;

Somos culpados pelo que fazemos,

mas não somos culpados pelo que sentimos;

Podemos prometer atos,

mas não podemos prometer sentimentos...

Atos sao pássaros engaiolados,

sentimentos são passaros em vôo.

Mário Quintana
«Ainda que fôssemos surdos e mudos como uma pedra, a nossa própria passividade seria uma forma de ação.»

Jean-Paul Sartre

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O Amor em Portugal

Mesmo que Dom Pedro não tenha arrancado e comido o coração do carrasco de Dona Inês, Júlio Dantas continua a ter razão: é realmente diferente o amor em Portugal. Basta pensar no incómodo fonético de dizer «Eu amo-o» ou «Eu amo-a». Em Portugal aqueles que amam preferem dizer que estão apaixonados, o que não é a mesma coisa, ou então embaraçam seriamente os eleitos com as versões estrangeiras: «I love you» ou «Je t'aime». As perguntas «Amas-me?» ou «Será que me amas?» estão vedadas pelo bom gosto, senão pelo bom senso. Por isso diz-se antes «Gostas mesmo de mim?», o que também não é a mesma coisa.

O mesmo pudor aflige a palavra amante, a qual, ao contrário do que acontece nas demais línguas indo-europeias, não tem em Portugal o sentido simples e bonito de «aquele que ama, ou é amado». Diz-se que não sei-quem é amante de outro, e entende-se logo, maliciosamente, o biscate por fora, o concubinato indecente, a pouca vergonha, o treco-lareco machista da cervejaria, ou o opróbio galináceo das reuniões de «tupperwares» e de costura.

Amoroso não significa cheio de amor, mas sim qualquer vago conceito a leste de levemente simpático, porreiro, ou giríssimo. Quem disser «a minha amada» — ou, pior ainda, «o meu amado» — arrisca-se a não chegar ao fim da frase, tal o intenso e genuíno gáudio das massas auditoras em alvoroço. Amável nunca quer dizer «capaz de ser amado», e, para cúmulo, utiliza-se quase sempre no pretérito («Você foi muito amável em ter-me convidado para a inauguração da sua Croissanterie»). Finalmente um amor é constantemente aviltado na linguagem coloquial, podendo dizer-se indistintamente de escovas de dentes, contínuos que trazem os cafés a horas, ou casinhas de emigrantes. (O que está a acontecer com o adjectivo querido constitui, igualmente, uma das grandes tragédias da nossa idade.)

Talvez a prática mais lastimavelmente absurda, muito usada na geração dita eleita, seja aquela de chamar amigas às namoradas. Isto porque os portugueses, raça danada para os eufemismos, também têm vergonha das palavras namorado e namorada. Quando as apresentam a terceiros, nunca dizem «Esta é a Suzy, a minha namorada» — dizem sempre «Esta é uma amiga minha, a Suzy», transmitindo a implícita noção, muito cara ao machismo lusitano, de que se trata de uma entre muitas. E, também assim, como se não lhes bastasse dar cabo do Amor, vão contribuindo para o ajavardamento semântico da Amizade.

Isto tudo em público — claro — porque, em particular, a sós, funciona a síndrome plurissecular do «só-nós-dois-é-que-sabemos» e os portugueses tornam-se pinga-amores ao ponto de se lhes aconselhar vivamente a utilização de coleiras de esponja muito grossa. Nisto, o sexo forte é bastante mais vira-casacas que o fraco. Em público, são as amigas, o Guincho, os drinques e as apreciações estritamente boçais do sexo oposto. Dêem-lhes, porém, cinco minutos a sós com a suposta «amiga» e depressa verão todos os índices aceitáveis de pieguice, choraminguice e «love-and-peace» babosa e radicalmente ultrapassados; ao ponto de fazer confundir a Condessa de Segur com Joseph Conrad. As infelizes «amigas» reprimem com louvável estoicismo o enjoo, e aconselham-lhes a moderação. As mais estúpidas não compreendem e vão depois dizer às amigas que os namorados têm feitios muito complexos, porque quando estão acompanhados, são uns brutos do bilhar grande, e quando estão sozinhos transformam-se em donzelas delicodoces, inexplicavelmente ainda mais nauseabundas do que elas.

A retracção épica a que os portugueses se forçam no uso próprio das palavras do amor, quando o contexto é minimamente público, parece atirá-los ilogicamente, para uma confrangedora catarse de lamechices cada vez que se encontram sós com quem amam. Dizer «Eu amo-te» é dizer algo que se faz. Dizer «Eu tenho uma grande paixão por ti» é bastante menos do que isso — é apenas algo que se tem, mais exterior e provisório. Os portugueses, aliás, sempre preferiram a passividade fácil do «ter» à actividade, bastante mais trabalhosa, do «fazer».

A confusão do amar com o gostar, do amor com a paixão, e do afecto, tornam muito difícil a condição do amante em Portugal. Impõe-se rapidamente o esclarecimento de todos estes imbróglios. Que bom que seria poder dizer «Estou apaixonado por ela, mas não a amo», ou «já não gosto de ti, embora continue apaixonado» ou «Apresento-te a minha namorada», ou «Ele é tão amável que não se consegue deixar de amá-lo». Estas distinções fazem parte dos divertimentos sérios das outras culturas e, para podermos divertirmo-nos e fazê-las também, é urgente repor o verbo «amar» em circulação, deixar-mo-nos de tretas, e assim aliviar dramaticamente o peso oneroso que hoje recai sobre a desgraçada e malfadada paixão.

Miguel Esteves Cardoso, in 'A Causa das Coisas'

"E falta sempre uma coisa, um copo, uma brisa, uma frase,e a vida dói quanto mais se goza e quanto mais se inventa"

Fernando Pessoa(Álvaro de Campos)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Querer não é poder.

Já poder...

AJO

...

«A poesia tem comunicação secreta com o sofrimento do homem».

Pablo Neruda

...

"Você é livre para fazer suas escolhas, mas é prisioneiro das conseqüências."

Pablo Neruda

Não vejo a hora de ...

... sentir.

De tocares a ponta dos pés.

De invadires o semblante.

De sentir o salitre.

Tua grandiosidade.

Teu poder.

Tua liberdade…

AJO

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Foi-se... A música fica...

Uma Beleza... Uma Beleza...

The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore from Moonbot Studios on Vimeo.

...

Sofro! Como sofro!
Sofro a ausência!
A ausência que ainda ontem era presença.
Porque ousei ver o que não posso ler?
AJO

Como é que se Esquece Alguém que se Ama?

Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?

As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.

É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.

Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.

Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.

O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.

Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'

O que Distingue um Amigo Verdadeiro

Não se pode ter muitos amigos. Mesmo que se queira, mesmo que se conheçam pessoas de quem apetece ser amiga, não se pode ter muitos amigos. Ou melhor: nunca se pode ser bom amigo de muitas pessoas. Ou melhor: amigo. A preocupação da alma e a ocupação do espaço, o tempo que se pode passar e a atenção que se pode dar — todas estas coisas são finitas e têm de ser partilhadas. Não chegam para mais de um, dois, três, quatro, cinco amigos. É preciso saber partilhar o que temos com eles e não se pode dividir uma coisa já de si pequena (nós) por muitas pessoas.

Os amigos, como acontece com os amantes, também têm de ser escolhidos. Pode custar-nos não ter tempo nem vida para se ser amigo de alguém de quem se gosta, mas esse é um dos custos da amizade. O que é bom sai caro. A tendência automática é para ter um máximo de amigos ou mesmo ser amigo de toda a gente. Trata-se de uma espécie de promiscuidade, para não dizer a pior. Não se pode ser amigo de todas as pessoas de que se gosta. Às vezes, para se ser amigo de alguém, chega a ser preciso ser-se inimigo de quem se gosta.

Em Portugal, a amizade leva-se a sério e pratica-se bem. É uma coisa à qual se dedica tempo, nervosismo, exaltação. A amizade é vista, e é verdade, como o único sentimento indispensável. No entanto, existe uma mentalidade Speedy González, toda «Hey gringo, my friend», que vê em cada ser humano um «amigo». Todos conhecemos o género — é o «gajo porreiro», que se «dá bem com toda a gente». E o «amigalhaço». E tem, naturalmente, dezenas de amigos e de amigas, centenas de amiguinhos, camaradas, compinchas, cúmplices, correligionários, colegas e outras coisas começadas por c.

Os amigalhaços são mais detestáveis que os piores inimigos. Os nossos inimigos, ao menos, não nos traem. Odeiam-nos lealmente. Mas um amigalhaço, que é amigo de muitos pares de inimigos e passa o tempo a tentar conciliar posições e personalidades irreconciliáveis, é sempre um traidor. Para mais, pífio e arrependido. Para se ser um bom amigo, têm de herdar-se, de coração inteiro, os amigos e os inimigos da outra pessoa. E fácil estar sempre do lado de quem se julga ter razão. O que distingue um amigo verdadeiro é ser capaz de estar ao nosso lado quando nós não temos razão. O amigalhaço, em contrapartida, é o modelo mais mole e vira-casacas da moderação. Diz: «Eu sou muito amigo dele, mas tenho de reconhecer que ele é um sacana.» Como se pode ser amigo de um sacana? Os amigos são, por definição, as melhores pessoas do mundo, as mais interessantes e as mais geniais. Os amigos não podem ser maus. A lealdade é a qualidade mais importante de uma amizade. E claro que é difícil ser inteiramente leal, mas tem de se ser.

Miguel Esteves Cardoso, in 'Os Meus Problemas'

Só um Mundo de Amor pode Durar a Vida Inteira

Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.

O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixonade verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios.Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há,estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida,o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.

O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.

O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado,viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não.

Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.

Miguel Esteves Cardoso, in 'Jornal Expresso'